Quase apetece escrever que Alessandro Cortini dispensa apresentações. Membro de longa data dos Nine Inch Nails – o que lhe valeu um lugar no Rock and Roll Hall of Fame –, construiu, em paralelo, uma carreira a solo notavelmente consistente e prolífica. Ao longo da última década, tem lançado um fluxo constante de música em editoras de renome, incluindo a Mute, a Hospital e a Important Records. Entre os lançamentos mais recentes, destaca-se o acalmado NATI INFINITI, de 2024 (Mute Records).
Figura de destaque da música eletrónica contemporânea, Cortini é reconhecido pela sua estética atmosférica, onde equilibra ambientes sombrios com pulsações rítmicas envolventes, criando composições densas e hipnóticas. São também incontornáveis os seus remixing para bandas como Depeche Mode, Mogwai ou Death Cab For Cutie.
Para além das digressões internacionais, o músico italiano compôs para desfiles de moda de casas como Alexander McQueen e Dior, e a sua música surge frequentemente em televisão, em séries como The Bear ou Twin Peaks: The Return.
20h00
Santuário da Falperra
Shane Parish gosta de meter-se por caminhos estreitos. Em 2024, lançou Repertoire (Palilalia Records), uma coleção de arranjos para guitarra acústica, de obras imensas do jazz, da eletrónica e da música clássica de vanguarda. Nesse registo, encontrávamos canções de Alice Coltrane, John Cage, Aphex Twin ou Kraftwerk, tão identificáveis como estranhas, na crueza do seu registo.
O músico norte-americano — também fundador da banda de avant-rock Ahleuchatistas e membro do Bill Orcutt Guitar Quartet — dobrou a aposta de risco com o seu novo registo, Autechre Guitar, lançado no início deste ano. Parish parte do universo dos britânicos Autechre, pioneiros da IDM e figuras seminais da eletrónica avant-garde, levando os temas para o seu território: a guitarra acústica, com raízes no jazz, no folk e no blues, e o seu inconfundível fingerstyle. Um disco que poderia ser classificado de impossível se não estivéssemos na presença de um dos grandes manipuladores contemporâneos das seis cordas de uma viola.
20h00
Santuário da Falperra
O disco de estreia de Calcutá parece escrito a pensar no Extremo. Soon After Dawn, lançado no início deste ano, encontra na alvorada um território de viagem onde cabem todos os territórios sónicos de que é feita a música de Teresa Castro.
Compositora, multi-instrumentista e artista sonora, é guitarrista clássica de formação, não deixando de fazer notar linhas de folk, que entrelaça com drone, ambiente e música experimental. Calcutá cria assim um léxico sonoro inteiramente seu: guitarras persistentes, harmónios que respiram, electrónicas que pulsam num ritual sonoro. A sua voz é também um instrumento que nos guia por espaços onde o tempo abranda e a escuta se aprofunda.
O disco lançado no início deste ano é o primeiro, mas Calcutá há muito que é um nome reconhecível da música feita em Portugal: saída das Mighty Sands, lançou-se a solo em 2015 com a demo Love Path Again, a que se seguiu o EP Over Night (2017). Em 2024, apresenta Feux d’Artifice, peça ambiente que abriu uma nova fase na sua criação. Ao vivo — acompanhada por Luís Barros na bateria e percussão e Maria Amaro no contrabaixo, voz e teclado — oferece uma performance hipnótica, densa e de forma livre.
20h00
Santuário da Falperra
Molero traz a exuberância da Amazónia para a floresta da Falperra. O músico venezuelano, há largos anos radicado em Barcelona, cria música com sintetizadores na qual explora imaginários tropicais, visões e paisagens sonoras oníricas.
Em Ficciones del Trópico (2020), disco de estreia que apresentou no Teatro Jordão em Guimarães, em 2021, a convite da Capivara Azul, começou a construir um universo inspirado na exploração do desconhecido e do utópico. Ali, juntou as visões do naturalista e artista gráfico Anton Goering, do escritor Victor Segalen ou do realizador Werner Herzog, entre outros para construir a sua própria interpretação da forma como os europeus perceberam – ou não perceberam – as Américas.
O seu mais recente registo, Destellos del Éxtasis, lançado no final de 2024 pela editora portuguesa Holuzam, amplia esse mundo para uma linguagem mais abstrata e simbólica, na qual a música flui e se transforma continuamente entre alquimia, sonhos e visões, mergulhando o ouvinte nas suas próprias perceções.
20h00
Santuário da Falperra
Na criação de Joana de Sá cruzam-se as gravações de campo, instrumentos clássicos como a flauta, a voz e a improvisação eletroacústica. Recorrendo muitas vezes à poesia, à manipulação de frequências e à soundcollage, a artista de Viseu parece ter sempre mais uma narrativa a partilhar com o público.
Em 2024, lançou de forma independente o disco Absedo, fruto de uma investigação artística e arquivística sobre o património megalítico do distrito de Viseu. Ao longo dos últimos anos, tem apresentado o seu trabalho a solo ou partilhando palco com outros artistas como Manja Ristić, Tiago Sousa, Joana Guerra ou o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa.
Além do trabalho no campo da arte sonora, trabalha também com desenho, fotografia, escrita, e vídeo, aliando objetos gráficos, a qualquer um destes discursos — o ponto de partida para estas práticas surge muitas vezes a partir da vida quotidiana pessoal, do acaso, da paisagem, de elementos de arquivo pessoal ou de domínio público que sejam considerados pertinentes abordar.
20h00
Santuário da Falperra
Baterista, compositora e multi-instrumentista, Valentina Magaletti tem redefinido os limites da percussão com uma abordagem original. É reconhecida pela sua técnica versátil, que a leva da bateria ao vibrafone, usando microfones de contacto e materiais encontrados, para construir uma paleta sonora capaz de segurar o ritmo ou explorar paisagens sonoras.
A presença ubíqua de Valentina Magaletti engloba colaborações que vão da cena alternativa ao mainstream, num catálogo onde se incluem Tomaga, Nicolas Jaar, Thurston Moore ou Kamasi Washington. Vale a pena destacar dois dos seus mais recentes lançamentos, resultado de trabalhos com a portuguesa Nídia (“Estradas”, de 2024, que recentemente passou por Braga na bienal Index) e a neerlandesa upsammy (“Seismos”, lançado no início deste ano).
A solo, o trabalho de Valentina explora texturas e identidades, cruzando colagem de drones lo-fi e objetos percussivos modulados. É neste registo que se apresentará no Extremo, com um concerto irrepetível, numa localização que só será revelada no dia do festival.
20h00
Santuário da Falperra
Os mais atentos já antes teriam notado a força que há na música de Debit, stage name da mexicano-americana Delia Beatriz, mas “Desaceleradas”, disco que editou pela Modern Love no final do ano passado, colocou-a definitivamente no centro da cena eletrónica mundial.
O álbum, o segundo que lança em nome próprio, propõe uma análise minuciosa da cumbia rebajada, transformada de forma singular para o universo sonoro ambiental de que Debit é devota.
Desde 2017, Delia Beatriz tem sido uma força pioneira na exportação e recontextualização da música de clube latino-americana, tendo-se apresentado, como DJ, em festivais um pouco por todo o mundo (Roskilde, Berlin Atonal, Unsound, Rewire, entre outros).
Enquanto criadora, inventa universos conceptuais marcados por rigorosas investigações. Foi assim que construiu “The Long Count”, o primeiro disco onde reconstrói instrumentos de sopro pré-hispânicos com ajuda de Inteligência Artificial, e também “Desaceleradas”, a partir de velhas fitas de cumbia que transitam de forma fluida entre a escavação cultural e o desenho de um futuro sonoro.
20h00
Santuário da Falperra
A fábrica de batida e de felicidade que dá pelo nome de Príncipe não tem parado de nos oferecer motivos para mexer o corpo desde a sua criação, em 2011. Na esteira de artistas incontornáveis à escala global como DJ Marfox, Nigga Fox ou Nídia, cresce agora a olhos vistos um prodígio de 19 anos que dá pelo nome de Helviofox.
Carlos Afonso, nasceu em Loures, numa família de origem angolana, no coração do movimento da batida lisboeta, cruzando ritmos africanos como kuduro, kizomba e tarraxinha com o house e o techno. As influências começam em casa – é irmão de Dadifox e Erycox – e estendem-se a outros DJs da zona, como Edy Fox, Studio Bros ou DJ Firmeza.
Estreou-se nas pistas aos 13 anos e, dois anos depois, fundou a TLS Produções, com E8Prod, DiionyG, Alberfox, entre outros. No final do ano passado, lançou o seu EP de estreia em vinil pela Príncipe, “Rodeado de Batida”, deixando desde já a sua marca, e que o traz ao Extremo, onde encerrará o programa desta edição.
20h00
Santuário da Falperra
Habitat é parte de uma série de instalações site specific concebidas pela artista e investigadora Adriana Sá, tendo por base um sistema sonoro adaptado, no qual cada coluna foi equipada com sensores de luz.
O volume de cada fonte sonora depende da luz captada pelo sensor correspondente, pelo que a paisagem sonora emitida nunca se repete: varia consoante a hora do dia, as condições meteorológicas, a arquitetura do espaço e o local específico onde cada pessoa se encontra em cada momento.
As faixas de paisagem sonora, reproduzidas simultaneamente, são construídas a partir de sons captados no monte da Falperra durante uma residência artística que Adriana Sá realizou este ano em colaboração com o artista norte-americano John Klima, seu parceiro de criação há quase duas décadas. Os dois artistas colaboram também na performance de ativação da instalação, no final da manhã dia do Extremo.
Adriana Sá é uma figura incontornável da cena exploratória nacional. Desde a década de 1990, começou a utilizar tecnologias de sensores para explorar construções sonoras ligadas à luz, ao espaço, ao movimento, à arquitetura, às condições meteorológicas e ao contexto social.
20h00
Santuário da Falperra
Mais de 20 anos de percurso sólido tornam Pedro Augusto um nome incontornável na cena experimental nacional. Do projeto musical Live Low, às incursões pelos sintetizadores modulares em nome próprio, a sua criação levou-o a alguns dos palcos mais importantes do país.
Também trabalha como artista e compositor musical para as áreas da dança, teatro, performance e cinema, aos quais junta um vasto percurso fonográfico como produtor, engenheiro de som e editor em diversos álbuns na última década.
Paralelamente, explorou a sua veia investigativa na construção do arquivo Found Tapes Porto, alimentado de forma independente desde 2004. Em contexto Académico, Pedro Augusto conduz a investigação “Pedra e Som: A matéria sonora na prática escultórica”, financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, no contexto do doutoramento em Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
É dessa experiência que nasce “Deriva das Pedras”, nova criação com que responde a uma encomenda do festival Extremo, num cruzamento entre caminhada e performance que só podia acontecer neste lugar.
20h00
Santuário da Falperra